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Acabou nosso carnaval

Carlito Peixoto Lima 16/03/2025
Acabou nosso carnaval
Carlito Peixoto - Foto: Assessoria




Eram quase duas horas da manhã quando quatro belas mulheres, Ítala, Tereza, Ana e Solange, desceram à praia de Jatiúca e se achegaram à Roda de Samba organizada pelos sambistas da Gaviões após do desfile na última noite de Carnaval. Músicos batendo, o povo cantando sambas. Uma sambista requebrava no meio da roda, os outros em volta dançavam na maior animação, não queriam que o carnaval acabasse. A sambista avistou Tereza foi buscá-la deixou-a no meio da roda. A bonita quarentona deu um show de dança e requebro, aplaudida. Puxou Ítala.


Ana sentada na areia da praia, ouvindo aqueles sambas bonitos, despedindo-se do carnaval, pensava na possibilidade de continuar na cidade por algum tempo, nova vida, até quando não sabia. Levaria uma vida simples, dedicada às causas sociais, ajudaria à cultura popular maravilhosa, fazendo projetos. Precisava pouco para viver. Ou, seria uma professora, ensinaria inglês, francês, holandês. Confessava à Solange seu sonho.


– Depois que pisei nessa terra encontrei tranquilidade e felicidade. Tive oportunidade de fumar maconha, cheirar cocaína, mas segurei. Meu único deslize foi sexo. – transar com Negrão Benedito, inesquecível aventura.


Cansadas de sambar, Tereza convidou Ítala para caminhar um pouco na areia da praia molhada pela marola. Deram-se as mãos. Ítala puxou a conversa, foi ao fundo.


– Você é feliz com essa vida que leva, Tereza?


– Vou ser franca, querida. Sou também uma atriz que nem você. Assumi um papel que venho representando há 20 anos. Você conhece a história: levei um tiro, a bala acertou um medalhão de Santa Terezinha que eu levava pendurado e resvalou. Gritaram, milagre, milagre. Todos queriam pelo menos segurar a medalha. Vadinho me transformou numa espécie de santa, comecei a fazer o papel de beata, conversando, até confessando os outros como os padres fazem. A partir daquele dia o dinheiro foi entrando, Vadinho inspirado nos pregadores da Bíblia na televisão, começou a pregar. Fundamos nossa primeira Igreja, deu certo. Construímos quatro Igrejas em 20 anos. Estou cansada, cansada de reza. Com vontade de mandar meu papel de Beata à puta que a pariu!


– Somos parecidas, eu já fiz muitos papéis na vida, como atriz. Só que minha vida foi meio destrambelhada. Aos 20 anos era uma mulher linda, queria porque queria ser atriz. Fiz curso, frequentava festas. Namorei muito, principalmente diretores, Muita gente querendo me comer depois que apareci num pequeno papel numa novela. Hoje sou famosa e rica, viúva de um Senador milionário.


E você vai fazer o quê de sua vida? Seus filhos adolescentes daqui a pouco estarão independentes.


– Pensei em abrir uma loja no shopping para vender roupas sofisticadas, inclusive roupas de rendas que as rendeiras de Marechal Deodoro e do Pontal costuram divinamente.


– Se quiser uma sócia, estou à disposição. Dinheiro não falta. Eu compraria roupas femininas chiques, enviaria para sua loja vender.


– Gostei da ideia. Vamos amadurecer o projeto.


Tomavam cerveja vendida por ambulantes retardatários na praia. De repente o mar a as nuvens foram se tornando rosas, alaranjadas. Um novo dia surgiu. A roda de samba continuava:


O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia


Encontraram as jovens Solange e Ana. As quatro belas mulheres subiram ao calçadão, atravessaram a rua deserta. Tereza cantou uma bela música, as outras acompanharam. Apareceram madrugadores nas janelas dos apartamentos. Elas sorrindo felizes, continuaram cantando alto acordando o quarteirão.



Acabou nosso carnaval, ninguém, ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija ou se abraça
E sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar. Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade...