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É Horrível ser corno

Encontrei Chiquinho na praia da Jatiúca; solitário, macambúzio, seis garrafas de cerveja consumidas, entre doses de cachaça. Arrastei uma cadeira, pedi acarajé, cerveja, puxei conversa com o amigo perguntando por Fernanda, sua digníssima esposa. Percebi a gafe, ao me responder cheio mágoa.
- Foi-se embora, me largou, aquela sacana!
Chiquinho sorveu um copo olhando para o distante horizonte do mar azul. Pedi-lhe desculpa, eu não sabia do fato, fiquei cheio de dedos, continuamos conversa amena, repetitiva, sem graça. De repente Chiquinho desabafou.
- A canalha está em Cartagena das Índias na Colômbia!!!!!
Indiscreto, perguntei o porquê da separação. Olhando para o chão, ele contou a história, com pormenores. Fiquei na escuta.
- Quinta-feira antes do carnaval fui preparar a casa de praia de Paripueira, colocá-la nos trinques para receber os amigos, como você sabe meu filho único filho, Bernardo, é uma vergonha, o viado foi passar o carnaval na Bahia. Apesar disso, eu e Fernanda vivemos em harmonia, poucos percalços em nossos 25 anos de casados, embora ela tenha desconfianças devido minha fama pregressa de mulherengo. Na verdade nunca deixei esse vício, minha compulsão por mulher é doença merecedora de tratamento. Na quinta-feira eu contemplava da varanda da casa a bonita vista da praia, quando apareceu Laurinha, filha da faxineira, para me ajudar. Eu “secava” essa jovem desde que retornou de São Paulo, para onde viajou num ônibus com menino no bucho, em busca do pai. Não conseguiu encontrar o pilantra, tentou sobreviver, foi difícil, retornou à casa da mãe em Paripueira com um filhinho.
Chiquinho tomou uma lapada de Ypioca, dois goles de cerveja, continuou.
- Laurinha, 21 aninhos, tem consciência de seu corpo bem feito, torneado, sensual. Por conta disso, até por exibicionismo, usa mini saia deixando à vista o belo espécime feminino. Em São Paulo, para sobreviver e comprar o leite do menino que nasceu, entrou no esquema de programas, aprendeu coisas inacreditáveis com as colegas; sabe seduzir um homem. Ao perceber que estávamos apenas os dois em casa, não me contive, cheguei junto, alisei seu cabelo. Ela me olhava nos olhos, sussurrou em cumplicidade pedinte: -“Que é isso Seu Chiquinho?” Deitei-a no tapete da sala, nos abraçamos, nos beijamos, como uma fera ela pedia mais, dei tudo de mim até a apoteose. Estávamos ainda estirados no chão, quando a porta se abriu. Fernanda chocou-se com a cena. Flagrante constrangedor, ela destilou todo ódio: - “Seus filhos de uma puta!!!” Bateu a porta, entrou no carro, voltou a Maceió. Eu não tive coragem de retornar à minha casa. Procurei amigos, parentes, contei a história, pedi para fazerem a ponte, dizia-me arrependido, nunca mais aconteceria, e outras promessas vãs que todos os pecadores cometem. Fernanda irredutível mandou recado, que eu não tivesse a ousadia em procurá-la. Sábado de carnaval, tristonho, acordei-me na casa de Paripueira, pensava, avaliava a merda feita. À noite foi dar uma volta no carnaval do centro da pequena cidade, tive um susto, meu coração bateu forte quando avistei Fernanda de short curto, barriguinha de fora, charmosa dançando na rua, pulando com amigos. Fiquei num barzinho, olhava para ela, nossos olhos se cruzaram algumas vezes, ela despistava o olhar. Até que certa hora o álcool me deu coragem, fui até Fernanda; ela me empurrou, ameaçando chamar a polícia. Levaram-me bêbado para casa. No domingo acordei-me deprimido. À noite foi pior. Ao perceber Fernanda abraçada, beijando um jovem surfista, parti para cima dela, puxei-a gritando que levaria para casa. Tomei um bruto soco do acompanhante, caí no chão. Levaram-me novamente bêbado para casa. Durante o resto do carnaval, procurei, não consegui encontrar Fernanda. Na quarta-feira de cinzas, tive coragem fui à nossa casa em Maceió. Ela havia desparecido levando algumas roupas, notei. Nenhum amigo ou parente tinha notícia de Fernanda, o celular não atendia. Soube notícia de minha mulher, uma semana depois do carnaval por uma amiga. Ela raspou nossa conta conjunta do banco, está passeando em Cartagena das Índias, não sei se acompanhada.
Ao terminar a trágica história bebíamos a 18ª garrafa, sentaram-se em nossa frente duas coroas gostosas, belíssimas, Chiquinho não teve apetência sequer de olhar. Eu, indiscreto, com pena, perguntei o que seria de sua vida?
- Quero a volta da Fernandinha, perdoo tudo. É horrível ser corno!
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